segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

OBSESSÕES


A distância entre o prato e o garfo deve ser exactamente de 1 mm.
E a toalha não pode ter vincos; caso tenha, recuso sentar-me à mesa e espero que tragam outra.
Favor pegar no copo pelo pé; nunca tocar no copo com as mãos e colocá-lo sempre à esquerda do prato.
Ah, já me esquecia; quero um arranjo de flores naturais no centro da mesa a uma distância de 5 mm. Não, as travessas ficam neste aparador por ordem – a terrina da sopa, a salada, o arroz, o peixe ou a carne e depois o prato com a fruta a qual deve ser bem lavada antes.
Nada de empilhar os pratos sujos, utilizar o tabuleiro para os levar para a cozinha.
Por falar em cozinha, ela deve estar sempre limpa, com o chão brilhante e os balcões polidos. E aqui é a lavandaria e o quarto das roupas. Só das roupas da casa – lençóis, toalhas de banho, etc.
Nunca misture a roupa de cor com a branca. Tenho um armário só para a roupa branca!
E atenção à forma como arruma a roupa de cor – os azuis na pilha do azul e assim sucessivamente.
Esta é a porta que dá para o jardim. Há um jardineiro, claro, mas tem que varrer sempre este pátio e nunca, mas NUNCA, entre em casa com os sapatos que levou para o jardim.
E quanto a sapatos, nada de sandálias ou chinelos. Sempre sabrinas, e de cores discretas; azul escuro, castanho, preto. O branco é aceitável e deve andar sempre de meias cor de carne e sem MALHAS! Mesmo no Verão!
Quando limpar estas salas, veja se deixa tudo no mesmo lugar. Alinhe sempre as revistas com o cinzeiro e feche as janelas quando terminar. Não, abre-as quando começar a limpar e fecha-as quando sair. O pó encontra sempre uma maneira de entrar e eu tenho horror a pó...
E aqui são os quartos. O da direita é do meu filho – ele é um pouco desarrumado, mas tem as suas regras. Ele explica-lhe como quer que o arrume.
Este é o das minhas filhas. São gémeas falsas, vai ser fácil distingui-las... Gostam de partilhar o quarto e as roupas, o que acho um absurdo... Elas também lhe vão dizer como querem que trabalhe aqui.
A casa de banho é comum aos três e eles sabem que a devem deixar limpa depois de a utilizarem. Mas, de qualquer maneira, quero que vigie a limpeza, mude as toalhas, veja se há sabonetes, papel higiênico, etc.
O meu quarto é o maior... Deve ser a última coisa a arrumar, pois tem que mudar os lençóis e as toalhas diariamente. Espanar muito bem os tapetes e a colcha e, de quinze em quinze dias, tira-a e manda-a lavar a seco. Tirar também os reposteiros; cada colcha tem reposteiros a condizer...
Este é o quarto de vestir do meu marido e aquele o meu. Tome em atenção a ordem em que os fatos, as camisas e os sapatos estão arrumados; o meu marido é muito exigente nisso e cuidado quando passar os fatos e as camisas... Se estas não tiverem os botões todos, não as guarde. Peça à Dona Carolina, a costureira que vem cá todas as semanas para os coser...
Deve fazer a mesma coisa com a minha roupa – bem passadas a ferro; nada de bainhas descosidas, falta de botões e nódoas.
A minha casa de banho também deve estar brilhante. Os espelhos e o chão bem polidos, as toalhas simétricas - nada de ponta acima, ponta abaixo - e o tapete deve estar rigorosamente a 1 cm do lavatório.
Creio que está tudo. É muita coisa para assimilar, eu compreendo, mas tenho a certeza de que vai conseguir organizar-se em poucos dias.
Há alguma pergunta que queira fazer? Não? Então, quando pode começar?
Como? Não quer trabalhar aqui? Pagamos muito bem; de quinze em quinze dias tem o fim-de-semana livre... O que quer mais?
Trabalhar com gente maluca? Está a chamar-nos malucos? Tenha tento na língua...
Onde pensa que está?
SAIA JÁ DA MINHA CASA!



Texto publicado na nova Colectânea da Lua de Marfim com o título/tema "Obsessões". O Lançamento foi no sábado passado, 06 de Fevereiro.
Espero que gostem.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O REINO - PARTE IV



III Parte

O meu foi um casamento de amor...
E fui feliz numa época em que as traições e as intrigas fervilhavam.
Não foi fácil percorrer todo este caminho, sei que deixei coisas por fazer e esperava que tu as completasses.
Por mim, por tudo aquilo que construímos juntos nesse Reino onde tanto amor houve!
Nunca pensei que te sentirias assim tão desesperado... Tão só...
E isso doí-me... Profundamente...
Por não saber já como te ajudar a viver sem mim...


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Continuação da história "O REINO" (ver posts anteriores)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CAVALO DE TROIA


Não sei porquê, mas hoje lembrei-me da Guerra de Troia.

Dos amores ilícitos de Helena e Páris... 

Da morte inesperada de Aquiles e do célebre Cavalo de madeira...

Será porque, às vezes, temos a sensação de que estamos cercados por inimigos? 

Será por isso que é tão difícil confiarmos em alguém?

Ou não é nada do que digo e é apenas vontade de escrever a minha versão da Guerra de Troia? 

A personagem pode chamar-se Helena, pode apaixonar-se loucamente por alguém... 

E nada ser como ela sonhou... Porque alguém pode deixar à porta um Cavalo de Troia...


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O REINO - PARTE III




Sinto-me só... 
Tão só que, às vezes não consigo falar e chamam-me arrogante...
Não sabem nada sobre mim... Nem sobre as Montanhas Mágicas onde fica o meu Reino... Onde ainda vive o meu Pai, o guardião das memórias da minha Mãe.
Também sinto a falta dela, mas nunca o confessei... Nem mesmo ao meu Pai...
E amanhã há uma nova batalha... Para vingar uma traição de um rei ambicioso...
Não peço nada a Deus e sei que poderei não sobreviver... 
Mas não penso nisso agora...
Porque o hoje ainda me pertence e canto baixinho velhas canções de infância...



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Continuação da minha história "O Reino" (ver posts anteriores)


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

VERDADE



Não sei se a verdade anda por aí... Continua a ser tão distorcida...

Torna-se numa versão muito pessoal dos factos, defendida em grandes discursos inflamados... até incoerentes, por vezes... 

Totalmente convencidos de que a verdade (a sua) é lei...

Por isso, continuo a perguntar: A verdade? Qual é a verdade? 

Alguém está interessado em saber qual é a minha verdade? 

Porque não basta dizer "Eu só digo as verdades e tu não gostas de ouvir as verdades!" 

A verdade é que ouvi um insulto... 

Mesmo que não tenham lançado para o ar palavrões... 

 

domingo, 24 de janeiro de 2016

O REINO - PARTE II



...

Porque é isso o que sou: um velho triste, sem futuro, sem tempo...
Ás vezes, chamo por ela e sinto que me responde. Paro, olho em volto e vejo-a. Se é a memória a pregar-me uma partida, que seja...
Ela foi o amor da minha vida e nada mais tenho a dizer...

II Parte

Sou um príncipe sem reino, sem rumo. Um aventureiro, dizem uns; outros, chamam-me mercenário. Não tenho lealdades; combato por quem pode pagar o meu preço...

Talvez um dia possa voltar ao meu Reino, reconstruí-lo, sorrir e ver os outros sorrir. Ou não; a vida é tão frágil, o Mundo tão exigente que posso perder a vida, aqui, num sítio que não conheço, que não quero conhecer...


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Continuação da minha história "O Reino"...
Aguardo as vossas sugestões...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O MUNDO



Esta noite, leio o meu nome na Lua...

Escrevo histórias no seu brilho... 

Invento mil personagens com a cumplicidade do Vento...

Num turbilhão de palavras... Num labirinto de paixões e cores...

Em rabiscos alegres... Num Mundo de fantasia...

Para acreditarmos de que é possível...

O Mundo real deslumbrar-nos...